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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

O curso da TAP


Ultrapassar todas as fases de recrutamento da TAP: CHECK
Email para iniciar o curso inicial: CHECK
Despedir-me: CHECK
Início de uma nova, longa e dura etapa: CHECK
Rezar para que acabe rápido: CHECK
Constatar que nada é garantido até ao final do voo de exame: CHECK

Ninguém te prepara para esta etapa. Ninguém te diz o quão difícil e trabalhoso irá ser o curso. Não me recordo de ouvir isto por aí. Provavelmente até o ouvi ao longo dos anos e ignorei por não ter passado pela experiência. Subvalorizamos e rapidamente esquecemos quando não é connosco. Até que passa a ser.

Ir para a TAP parece algo quase inalcançável para quem já anda nisto há uns anos. É ao mesmo tempo algo assustador em que nos questionamos se no fundo é aquilo que queremos, pois já experimentámos o melhor da aviação (achamos nós, do alto da nossa arrogância e possuídos de um forte esquecimento dos momentos maus). Aviação pura comercial consegue assustar. Talvez me alongue mais sobre este assunto um dia. 

No meu caso, foi tudo inesperado e rápido. Fui sem ter a certeza se seria aquilo que queria mas a saber que seria o mais acertado. E lá fui.

No primeiro dia assinei um contrato de formação em que refere que se saísse do curso, teria que pagar 2500€ à TAP. Tratei do ID e da farda. Verde ou vermelha, dúvida que exemplificava também o meu estado de espírito.

Apresentações. E mais apresentações. Nossas, dos formadores, dos colegas. Ter uma turma, conhecer cada um, nomear um delegado, ter uma placa na mesa com o nome, estar de novo a estudar, a apagar o que já estava e a reaprender. A apagar mesmo o passado. Foram assim os dois meses de curso.

A minha turma tinha pessoas experientes (já Cabineiros), experientes de outras áreas e os inexperientes saídos da faculdade. Para os últimos dois era tudo mais fácil embora os mesmos não achassem. Não tinham que fazer nenhum reset, só aprender algo novo.

A coisa que mais me surpreendeu foi a paixão que senti logo nos primeiros dias de todos os formadores dos diversos departamentos da TAP. Falam a sorrir, como se lá fossem felizes e fazem questão de nos passar essa paixão e de nos fazer sentir já parte da família - ''Já cá estão, esse número TAP será sempre vosso, aconteça o que acontecer'' - Dizem-nos que se quisermos ficaremos até à reforma. A paixão e segurança num emprego não são algo a que tenha sido acostumada (toda a minha geração). O mais incrível é que apesar de ser bom, a sensação consegue também ser assustadora.

Testes no computador que não são difíceis, aulas, muitas aulas, refeições oferecidas no megalómano refeitório, medos e receios com o passar das semanas e o aproximar do temido exame de salvamento.

As aulas práticas de mock up são para muitos as mais assustadoras pois são as que nos preparam para esse exame final. Muitos aproveitam para praticar e muitos tentam por tudo esconder-se entre os bancos. Há berros e comandos assertivos, stress e às vezes lágrimas. Treinamos fogos, despressurizações, amaragens, aterragens, emergências médicas e com matérias perigosas. Treinamos com os bombeiros, forças especiais da GNR, nadamos e usamos mangas barco, coletes e um sem número de material de emergência. A TAP tem as instalações e o material para que esta aprendizagem seja o mais real possível - o que a torna também a mais assustadora possível. Aqui se treinam líderes, pessoas capazes de lidar com muito stress. Não duvidem disto - capazes de lidar com muito stress. Muitos chumbam ao longo do curso porque nem sempre é visível esta capacidade - confiança é a qualidade mais importante neste curso e nesta profissão.

No final treinam-se os discursos e as demonstrações de segurança, bem como o serviço a bordo.


Reuni algumas dicas:

- Aos experientes, sejam humildes e respeitem quem está a aprender. Não demonstrem a vossa automática experiência só porque já sabem o que é uma MRT. Ser experiente para a TAP é uma desvantagem. Excesso de confiança, comparações ao passado são evitáveis.

- Aos inexperientes, exige-se maturidade. Poderá parecer a continuação da faculdade, mas aqui discute-se o vosso futuro profissional. Os instrutores não são stôres, nem são mestres da oratória nem da paciência. São pessoas experientes na área que querem o sucesso de todos. O nosso sucesso é mesmo o sucesso deles. Conversas entre colegas em aulas é inadmissível. Não estão mesmo na escola e como ainda não sentiram o poder da hierarquia em aviação, não sabem o quão importante é. Aviação está repleta de regras e por mais estranho que te possa soar, já está tudo escrito e não irás mudar nada. O truque é ouvir e respeitar.

- Respeitem as diferenças dos colegas e ajudem-se. Pratiquem uns com os outros. Não vale a pena querer ser o melhor. O pior da turma ficará sempre à frente do melhor aluno da turma seguinte.

- Pratiquem no mock up sempre que conseguirem.

- Façam boas preparações de voo para os voos de familiarização e de exame.

No dia do exame de salvamento, vão perto da vossa hora e procurem estar calmos. Se estudarem muito e se praticarem quase até à exaustão (até o capacete da moto pode ser uma PBE), irão sentir-se confiantes. Confiem em vocês mesmos.

Boa sorte! 

Bons voos agora!