Upa, upa, vinde daí, Navigator!
Antes de mais, quero que percebam que adoro cabineiros.
Adoro todos, mas mesmo todos.
Os recém chegados, cheios de pica como aquelas com tranças complexas à Kardashian logo pela manhã, aqueles maçaricos mais lentos e envergonhados, que tomam nota de tudo e lêem todos os briefings ou ainda aqueles que tratam todos por você. Aquele novato cabineiro repleto de sonhos e fome do mundo, desejoso que o convidem a passear nas estadias. Aquela novata nervosa que se atrapalha a falar com pessoas e com medo que alguém lhe pergunte algo de aerodinâmica. Aquele puto pintarolas cheio de lata e atrevido, ou aquele cheio de perguntas e bloqueios. E aquele puto ambicioso que entra a manifestar interesse em ser chefe mas que ainda não pesca nada desta vida?
Adoro especialmente aquela cabinfluencer cheia de si, selfies e instastories. Adoro a novata que ainda sabe com quem voou, nomes e estadias, e secretamente não entende como os outros já nem sabem quem ela é. E aquele novato que já nasceu depois do Titanic? Pois é. Já andam por aí.
E a cabineira que chega 1h antes da apresentação e com uma maquilhagem digna de um pro, com um incrível dégradé de sombras com as cores que vêm definidas em regulamento (claro) e um perfeito e suculento baton.
E a cabineira que chega 1h antes da apresentação e com uma maquilhagem digna de um pro, com um incrível dégradé de sombras com as cores que vêm definidas em regulamento (claro) e um perfeito e suculento baton.
Aquele brilho e alegria de quem entra. Há que adorar.
Adoro também aquele que ao fim de uns meses já generaliza como se cá andasse há anos e opina como um cabineiro senior.
Adoro a que se organiza, que sabe sempre tudo e é metódica, tem apontamentos com títulos de diversas cores, para além do azul do Holiday Inn de Londres. Aquele cabineiro RP que todos conhecem ou aquela cabineira que quer é ser piloto.
Adoro aquela maluca que não consegue largar as charters e que teima em não crescer. Como a entendo.
Adoro aquela maluca que não consegue largar as charters e que teima em não crescer. Como a entendo.
Props aos putos da proteína e que após a estucha da vida ainda vão ao ginásio. Adoro o que não falta ao pequeno almoço e faz sandes para depois e aquela que aproveita para dormir e fazer o que lhe dá na real gana. Adoro a fanática da DM, dos M&M's de manteiga de amendoim e da lingerie sexy da VS. Já não vive sem isto. Cada um sabe por que cá anda. Eu só cá ando pelo babybel que costuma embarcar com a minha refeição.
Não nos podemos esquecer também dos loverboys atentos às inúmeras gatas cósmicas, aqueles que roubam a PIL do chefe para tomar nota dos nomes das felinas. Um bem haja às Redes sociais. Amén.
Adoro todos aqueles convívios onde se refresca a alma com vinho após um voo, pois isso é que é bom CRM. E um cabineiro gosta de defender um bom CRM.
Ode ao cabineiro repleto de ímans do mundo, placas de matrículas ou de inúmeros "já agora", ou aquele com pins de aviões e remove before flight tags mas que mesmo assim diz que não gosta assim tanto disto.
Adoro a assistente que contagia toda a tripulação com o seu bom humor e que torna tudo mais fácil.
Ode ao cabineiro cansado, aquele que lê o jornal no embarque, aquele que não quer mesmo que o chateiem. Aquele que coloca logo águas no gelo de início para que congelem os dentes se lhe pedirem água para remédio. É no fundo aquele cabineiro que já perdeu o seu fulgor, que vê mal em tudo mas que também não quer sair.
Gosto daquele que julga que a sua opinião é importante num refrescamento, que vem munido de uma voz forte e colocada, ou daquela que questiona e propõe diversas alterações em importantes áreas da companhia, a verdadeira gestora cabineira, ou aquela que ainda envia emails com sugestões e que não perde a esperança.
Adoro o hospedeiro a quem a cocote subiu à cabeça e faz tudo à sua maneira. Adoro os atletas de maratonas de trolleys durante o serviço, na ânsia de ganharem uma cafeteira de ouro (só pode ser a explicação) ou aqueles cabineiros fatigados que se escondem nos lavabos.
Devia existir um hino a ti, cabineiro já velho e desbocado, que já nada teme, ou aquela que já deixou de socialibilizar há anos pois já não está para isso.
E a recém mamã que só pensa no bebé em casa e que sente o coração na boca nas descolagens? Não é fácil.
Adoro o cabineiro que secretamente tem medo de voar e a cabineira que ainda sonha em fazer parte do mile high club.
Aquela que instiga a novata a mudar rapidamente de vida para que não cometa os seus erros, erros esses causados somente e exclusivamente devido às ausências da aviação. Adoro aquele que já se esqueceu até dos rostos de com quem voou.
Um especial elogio a ti, à verdadeira assistente de bordo, aquela que não perde o sorriso depois de décadas de céus e que continua bonita e jovem. Especial louvor àqueles que já apanharam sustos da vida e que ainda cá andam.
Adoro o cabineiro que vive ainda na era do glamour e se recusa a adaptar.
Fazem todos parte da miscelânea diária que temos a bordo. Somos uma espécie que nem todos entendem e que adoram julgar do exterior. Pouco nos importa, na verdade. Somos unidos pela hipóxia.
Todos fomos, somos e seremos mais do que um personagem deste texto. Isso é certo. Somos uma espécie em evolução.
Todos fomos, somos e seremos mais do que um personagem deste texto. Isso é certo. Somos uma espécie em evolução.
