quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Recrutamento TAP


Outubro e Novembro trazem esperança a quem ainda sonha entrar na TAP. Novos e antigos processos a decorrer, novas entrevistas iniciais e novas turmas em curso.
O site de recrutamento mudou nos últimos meses bem como a possibilidade de envio de candidatura espontânea. 
Estejam atentos aos emails e partilhem os vossos testemunhos.





segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Vamos falar de pilotos?


Pilotos, esta classe galáctica que nos conduz pelos céus. Este texto é para vocês.

Tantas divisas para encher as mangas com personas existentes nesses cockpits por aí e tanto a dizer destes escritórios com uma vista incrível. Analisaremos então este mundo visto por quem lida diariamente com pessoal navegante técnico, desde colegas nos escritórios a TMA's, e claro, comissários de bordo.


Despique?
Não. 
Vingança! (com direito à gargalhada final do Thriller do Michael Jackson).

Por onde começar?
 
Talvez pelos novatos, os saídos das escolinhas de aviação ainda com asas de frango da guia. Quando largados, após 10kg perdidos ou adicionados e após contacto com muita diversidade de instrutores e dissabores, eis que exibem finalmente aquele blazer e aquele Ray-Ban de aviador com muita euforia. É vê-los hirtos e histéricos, com uma lanterna a fazer checks aos pneus e com todo o power nas estadias. Passear com um newbie destes num mercado paupérrimo em Abidjan é ir acompanhada por um sorriso constante que não se desfaz, como o das manequins nos concursos para supermodel of the world. São aquele emoji em êxtase que tem duas estrelas nos olhos, sabem? Dizer-lhes que possuem um pequeno joystick é melhor do que dizer-lhes que a aterragem foi má. Nas aterragens deles encostamo-nos bem ao jumpseat e colocamos o lenço a tapar o colar cervical para amparar o impacto. Daí o propósito de usarmos lenço. 

Um comandante adora fingir em duas situações perante um rookie dos céus. A primeira é quando se ri das piadas do novato e a segunda é quando finge estar-se a sentir mal em pleno voo. E a cabineira também aplaude e promove as praxes sempre que possível. Adoramos praticar o Pilot Incapacitation. É o tal CRM.
 
Adoramos o piloto outrora cabineiro, que ousa tocar nos trolleys e fazer a sua bebida. Sabe falar a gíria da galley. É aquele que pede tudo com cuidadinho, sabe bem do que o hospedeiro é capaz.
 
E o piloto que nunca levará a refeição que sobrou da primeira classe?
 
Temos aquele piloto tão aficionado que voa ultraleves nas folgas e aquele que já só busca folgas.

E a senhora piloto? Freaking girl power! O Cabineiro fica louco e os passageiros ainda não acreditam ser possível. Agradecem-lhes à chegada e agradecem aos deuses. O cheiro da alfândega e dos lavabos do aeroporto assemelha-se ao de Grasse em França.

E o que casa com a farda? O amor à aviação fala mais alto. É o que casa com a companhia.
 
E aquele que coleciona assistentes de bordo? E quando as escalas o castigam e as colocam juntas na mesma tripulação? Bendita porta do cockpit. Já sabem o porquê de esta ser uma das profissões mais stressantes que existem.
 
Temos também o piloto entusiasta que tem o toque de mensagens autopilot off, está a par de todos os fóruns e subscreve a revista Take off Sirius, AeroNews, L'Aviation, Air International e recebe notícias diárias e automáticas do Google sobre aviação. O verdadeiro fã do Top Gun. O que está em êxtase com o Top Gun 2020! O que tem uma t-shirt do Goose e outra do Maverick. Mesmo sem jeitinho algum, faz modelismo de aviões e acena aos spotters. No dia seguinte vai em busca das fotos.

E os hobbies deles no cockpit nos voos longos? Atrevo-me?
  
O que adora teimar com os placas, tma's e tudo o que mexe. O "H" no alfabeto aeronáutico é Hierarquia, meus caros. É o que pede laranja descascada no pratinho. Cheiro de laranja nas mãos é para pobre.
 
É diferente do que tem mau feitio. Rosna sempre, sabe os manuais todos e implica com tudo. Pega com as assistentes e chefes mais novas porque sabe que pode. 

E o playboy engatatão, cheio de si, piropos e conversas parvas. Coitado. É tão bizarro como o que tem conversas tão estranhas que nos faz querer mudar de voo ao ver o seu nome. Alguns podem contactar com espécies interestalares, outros vêem como águias... São os que fazem com que achemos que se calhar os pilotos até são mesmo híbridos de aliens com humanos.
 
E aquele que quando coloca a farda se torna imbecil e depois quer ser porreiro nas estadias? É óbvio que apenas nos interessa saber a hora do pick up e é naquele momento que nos lembramos da nossa prima Maria, emigrada na Noruega e que coitada está tão mal. É uma chatice. Coitadita.
 
Existem muitos que têm medo da companhia onde trabalham. São os que não reclamam, não se exaltam nem reportam quando deviam.
 
O piloto que parece que tem o pin do remove before flight preso à aliança (para a tirar em voo) e os divorciados carentes de atenção, que pagam jantares em busca da sobremesa.
 
E os que levam tudo o que sobra dos voos? Vocês sabem lá o que lhes custa a vida, filhos crescidos que nem trabalham nem estudam (geração nini), pensão à ex-mulher, o barco na marina, o treinador de padel...
 
E os que perguntam ao chefe quem vai estar na galley da frente logo no briefing? E os que teimam em escolher a cabineira qual stripper num bar de alterne?

Temos também o engraçadinho, aquele que tem imensas piadolas acerca da melhor e mais incrível das classes e da deles. Exemplo: "Sabes o que é uma assistente de bordo grávida? - Pilot Error!".
 
E aquele que é tãooo tio. Sabe qual, querida? É todo um glamour, um óculo de sol incrível, um perfume intenso, um relógio clássico, um poliglotismo incrível acompanhado de uma voz forte de radialista.
 
Temos aquele comandante que descreve a rota toda ao pormenor e aquele que já nem fala para passageiros. ''O copiloto em nome do comandante e de toda a tripulação'' bem pode fazê-lo.
 
E aqueles pilotos que apenas jantam com os da sua estirpe? 

E aquele comandante que ganha tão bem e divide a conta na estadia por toda a tripulação onde não se inclui, junta o dinheiro de todos e ninguém se apercebe da laia do tipo. Existem. Acontece.


Adoramos também aqueles que fazem mil pedidos, mil cafés. Só pode ser porque nos querem ver.

E os que não esperam que termine o serviço para comer? Mentalidade em que tudo começa no flight deck. Sem eles, nada feito. Eles primeiro, passageiros depois. Que escândalo alterar esta ordem. Piloto é Deus!

Piloto que fica ali na galley, que se mete na conversa dos tripulantes de cabine.
Como assim?!
Xô para a marquise!
 
E o piloto papá, o que aconselha a que não se beba água da torneira, nem se comam saladas, nem se saia do hotel e que obriga a tripulação a ir à igreja ao domingo.

E os dos escritórios que lhes gerem a vida e as birras de parelhas ‘'não quero voar com este'' ou ''não quero ser verificado por aquele'', ''não faço simulador com este’'. São também quem lhes diz referente ao elearning ''é só puxar para baixo a página, comandante. O cursor do rato, comandante. O rato que move o ponteiro. Não sei por que se chama rato, comandante''.
  
Os engenheiros, entendidos do aparelho em si, são também excelentes observadores de pilotos. Adoram os pilotos de aviários, os que não foram informados na formação que teriam de fazer walk arounds quando chove ou neva numa noite fria, ou os que apontam a lanterna à fuselagem com a rapidez supersónica e dispersa como as luzes de um concerto pop.
 
O vulgo TMA também adora partilhar conhecimento com o piloto que descobre na linha que os aviões são possuidores de uma tecnologia extremamente avançada, e fica enternecido quando o esclarece de alguns sistemas.

Temos também o comandante pseudo técnico, aquele que reúne a tripulação à sua volta nos tempos mortos e tenta evidenciar aspetos técnicos, normalmente escutados por pilotos mais novos e pela cabinagem com extrema atenção. Este tipo de piloto fica automaticamente desconfortável quando chega o TMA. O comandante volta de novo a impressionar o puto piloto quando estão a sós no cockpit.
 
TMA fica espantado quando o piloto questiona as decisões tomadas por pessoas certificadas para o efeito, às vezes até o manual do fabricante.
 
O preferido dos TMAs é o piloto Aviador, o que faz o seu trabalho com afinco, tenta obter alguns conhecimentos extra junto das pessoas próprias, faz a separação de poderes no dia a dia, tenta agilizar situações mais complicadas, revela calma e perspicácia em situações não standard e claro, LVO / CAT III e pistas curtas são o momento alto do dia. TMA sabe também reconhecer competências.

Estão aqui presentes alguns, não todos. A verdade é que não vivíamos sem eles. A verdade é que até assim os adoramos. Somos todos aviadores e os aviadores adoram-se. Têm um mundo estranho em comum.

Não tentem entender isto.

Não há nada que nos custe mais que um último voo de um comandante ou o dia em que sabemos de um piloto que partiu cedo. Um piloto não se reforma nem conforma, estará sempre inquieto.

Esta classe enche-nos os jantares de histórias e aventuras e sem nos apercebermos fazem-nos apaixonar por aviação. Vamos criando odisseias em conjunto.

Para concluir, tenho uma frase lamechas de quem começou por imaginar homens a voar:

Todos juntos fomos elevados por penas. O Homem foi elevado ao céu como os pássaros e foi com as penas destes que escreveu cartas e criou teorias e que fez com que hoje estivéssemos todos juntos. Sem classes, todos os que incorporam o sector.

Isso vê-se em cada escritório de aviação repleto de pósteres; na quantidade infinita de merchandising para tontos aviadores (a saboneteira da minha casa de banho é um extintor de halon - confesso também que ofereci outros tantos); nos nossos dedos nas redes dos aeroportos a ver aviões a descolar e a aterrar; nos chocolates que oferecemos às tripulações sem motivo aparente só porque é simpático quando voamos como passageiros; no Natal quando achamos que não há nada mais interessante para uma criança que toda a linha de aviação da Playmobil; quando estamos todos no cockpit a ver os Alpes ou Miami a 39.000 pés ou a ver um avião ao nosso lado repleto de outros tontinhos como nós (que estarão eles a fazer?).

Temos todos a cabeça ao vento, somos todos iguais. 
 
No fundo, vai ser sempre assim.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Hifly - Recrutamento


A Hifly vai realizar um Open Day para recrutar novos tripulantes de cabine para a companhia.
Lisboa: 10 setembro 2019 | 9h00 | Hotel Holiday Inn Lisboa.

https://kiosquedaaviacao.pt/recrutamento-hifly/

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Os nossos velhos


 
 
Os nossos velhos, aqueles que cá brotaram entre as brumas da memória, são astrosos, soturnos e não têm bons modos.
 
Outrora heróicos. Já demos mundos novos ao mundo e hoje não damos nada.
 
Os nossos velhos são pouco literatos, refinados ou viajados e não estão em paz. 
 
Não são como os demais que vejo a bordo provenientes de outras fronteiras. Os nossos não viajam de encontro a luxuosos cruzeiros, são demasiado sérios para beber um cocktail às 16h, não aprenderam a reciclar, não lêem livros de bolso nem ousariam deixá-los para trás para outro ler.
 
Nem mesmo a imprensa rosa fica.
 
Afinal de contas, por quanto tempo é razoável guardar a TV7dias? 
 
Ficará também esquecida. 
 
Os nossos velhos são pobres e ficaram sem tapete no fim da vida. Não temos idosos, temos velhos por cá. Já não interessam e não estão na moda.
 
Plantaram alimentos e vida, lutaram em guerras e hoje nem conseguem descansar.
 
O ócio que lhes restou começa por volta das dez da manhã nos generalistas.
 
Repouso também têm pouco pois vivem na incerteza de como viverão cada dia.
 
Estão sós. 
 
Estão ruralmente isolados em todo o lado, mesmo que cercados por milhares de vizinhos.
 
Os nossos velhos que mais voam, são por norma os emigrantes. E dentro desta estirpe temos dois tipos, os que partiram e querem voltar um dia para gozar cá a reforma e aqueles que só vão voltando por motivos familiares e que optarão um dia em nem sequer fazer férias em Portugal. São os que infelizmente se aperceberam que existe uma realidade mais próspera, mesmo quando se é apenas um velho reformado. São aqueles que contrariaram o ditado e sabem que burro velho aprende línguas sempre que necessário. São aqueles que sabem que no fundo existem praias mais bonitas, marisco em mais sítios, ou diferentes e igualmente boas formas de comer bacalhau. Afastam queixumes e já não sabem o que é passar dificuldades, aprenderam a ocupar bem a cabeça e a rodearem-se de inteligentes escapes.
Estes velhos são leves de espírito, soltaram-se da saudade e da culpabilização ao doloroso passado.
 
Os nossos de cá aparentam estar mais cansados, mais infelizes e como se não bastasse, mais sós. Trabalharam muito e ganharam pouco. 
Têm mais saúde mas pouco lhes serve quando não têm mais nada nem ninguém. 
São também ingénuos e caem facilmente em qualquer sorriso e bugiganga. 
 
Num país de segundas pessoas do plural, é-lhes muito importante quem os rodeia, sobretudo os dos cargos importantes, os dos altos estudos, os de boas linhagens, ou até as personalidades da TV. Se lá vão é para se ter em consideração. São seres fascinantes e merecedores da demais atenção.
 
Os nossos velhos falam alto como se quem os escuta não ouvisse igualmente bem, exprimem-se muito e pouco lhes importa se estão a incomodar quem não tem interesse nas suas conversas. Sabem que aos poucos todos vão perdendo o interesse neles, portanto quando falam e alguém os escuta, não querem saber de mais nada.
 
Os nossos de cá, sem modos, com dores e nuvens constantes, são os que mais incomodam as carruagens e cabines repletas de adultos em busca de silêncio. São os que sabem que um dia serão iguais a estes velhos e esse medo aumenta a cada viagem, a cada dia de um novo mês.
 
Por vezes sou esta adulta, fruto de um vazio de ter crescido sem seniores na minha vida e numa grande cidade onde não se questiona o próximo e onde se ignora a velhice.
 
Sabemos que são assim, os nossos velhos, sem modos e infelizes, mal educados e rabujentos, desejosos de atenção. São os que não aguardam quem tem que sair primeiro das carruagens, ou os que se levantam de imediato assim que o avião aterra, os que o seu maior consolo é o copo cheio de tinto, ou os que olham descaradamente e sem educação.
 
Quantas mais vezes ouvirei que bom era uma sandes de leitão?
 
Que geração nova é esta que lhes quer dar comida sustentável e mais saudável? Que lhes ensina algo de novo? Que lhes pode mostrar outras razões? Que ser ...fóbico já não é a norma? Que existirão sempre novas conjeturas (sem ''C''). Sempre.
 
Que existe esperança.
 
Espero ser um dia  a grisalha que coloca livros lidos, escritos ou traduzidos na nossa língua, numa qualquer estante de um qualquer hotel deste mundo, aquelas repletas sempre de livros de bolso estrangeiros para qualquer um ler. Espero encontrar muitos outros em português em cada estante.
 
Quero temperar um bloody Mary às 16h enquanto um filho me faz companhia com um gin tónico, sem julgamentos.
 
Quero novas línguas.
 
Quero poder ler um livro em silêncio onde a minha única preocupação é qual será a melhor posição para segurar aquele livro, acompanhada pelo meu velho e por outros, também felizes e serenos.

 





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quarta-feira, 17 de abril de 2019




Nova vaga de contratações da TAP rouba tripulantes a companhias do Médio Oriente


Companhia aérea portuguesa está a reforçar equipas para colmatar falhas antigas e dar resposta a mais rotas e mais aviões. Neste ano vão entrar 500 pessoas para os quadros da companhia portuguesa. No ano passado entraram 1200.


Fecharam a porta a Portugal e à crise com um bilhete só de ida para o Médio Oriente. Cruzaram os céus em inglês ao serviço de companhias como a Emirates, Qatar ou Ethiad, mas agora, a nova vaga de contratações lançada pela TAP está a fazer regressar muitos tripulantes e pilotos para voarem com as cores nacionais.



(continuação)

quinta-feira, 11 de abril de 2019

Próximos Open Days

Coimbrinhas, bracarenses, algarvios e alfacinhas





Estas empresas vão até vós!

Partilhem o vosso testemunho acerca destes open days.

Boa sorte a quem possa interessar!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Esta miúda




Esta miúda sonhava em viajar desde sempre.
 
 
No sétimo ano já vagueva com as aulas de Geografia e de História, perdia-se com histórias de faraós e intrigava-se com o país dos mil lagos.

Esta miúda apenas pôde sonhar e desejar que um tio afastado da família a levasse numa viagem com os primos. Era o máximo que teria.
 
Esta miúda voou já tarde, com um bilhete ganho num sorteio, na bolsa de turismo de Lisboa, feira encantada a que ia desde sempre coleccionar folhetos e mais sonhos. Uns anos sozinha, outros acompanhada, sempre de mochila, sempre certa que um dia poderia ver para lá do seu bairro dormitório em Lisboa.
 
Quis fugir. Quando a oportunidade surgiu, não hesitou. Foi. Não havia nada a fazer.
 
Foi voar alto, a 39.000 pés, longe do que conhecia e feliz pelas horas em que estava incontactável sempre que voava. Era uma benção e foi uma desculpa deliciosa durante anos.
 
Esta miúda não saberia como seria o calor abrasador dos países árabes, nem as suas orações sempre com vozes masculinas que ecoam por toda a cidade. Jamais imaginaria o som estridente que as mulheres árabes conseguem fazer - zaghareet, os chinelos à entrada das mesquitas, o cheiro intenso a especiarias, ou os gatos vadios a banhos com a sujidade.
 
Em adulta, já não esperaria necessitar de ajuda - e de fechar os olhos - para atravessar as caóticas ruas do Cairo, repletas de carros desenfreados, onde o acelerador parece estar ligado à buzina, originando uma sirene constante e a mais irritante banda sonora - "hey, don't worry. It's the system'', explicação dada e aparentemente plausível por lá.

Viu de perto alto e baixo-relevo nos túmulos egípcios e subiu a uma pirâmide de Gizé, como o Morgan Freeman - sem o amigo rico ou uma bucket list.

Jamais sonharia que um dia realizaria dezenas de voos com peregrinos para Mecca, e que se ainda fechasse os olhos, conseguiria escutar as orações típicas da descida para Jeddah - "labayka la shakira laka labbaik". E as discretas setas em todos os quartos de hotel a apontar a direcção de Mecca? Desconheceria, certamente. 
 
Ficaria sem saber o que é ser apedrejada em Constantina, Argélia, por ter ido passear pela cidade, num dia em que as mulheres ficam obrigatoriamente em casa a cozinhar e a celebrar o fim do Ramadão. Como saberia?

Frutos secos, souks, pechinchas do corniche, pita shoarma ou mango juice seriam o seu Oásis em meses duros por lá, aquela miragem de água no deserto, como nos filmes. Usar abayas e tentar passar por local, sempre atenta aos uniformes brancos da polícia reliogiosa e seus possíveis berros quando implicavam com o lenço da miúda. Perguntarem-lhe pelo seu dote. Tudo isto. Como saberia? Como imaginaria?
 
Esta miúda transportava militares da mesma forma que fazia voos humanitários para sítios em guerra. Transportava muçulmanos para a pedra negra e judeus para Tel Aviv. Trabalhava no norte mas também no sul da Nigéria. Tanto transportava passageiros low cost, como clubes ou bandas de renome. Percebeu também que inesperadamente podemos ser bem recebidos em cidades talibã e ser humilhados pelos desenvolvidos povos ocidentais. Habituou-se a não tomar partidos e viu de perto a pluralidade de culturas. Percebeu que o mundo é bem maior do que algum dia imaginava. É vasto e confuso. 

 
Esta miúda deliciou-se com semanas em praias ainda mais bonitas do que as que constavam nos catálogos Abreu, boiou em cenotes no México, nadou com tartarugas gigantes na grande barreira de coral australiana - viu de perto o seu repasto de medusas - nadou com tubarões, raias e golfinhos, pegou ao colo um koala, admirou um diabo-da-tasmânia e um dingo, e passou uma tarde sentada no meio de dezenas de cangurus. Deu banho a um elefante, viu e ouviu milhares de morcegos a voar nos céus de Cairns. Abraçou cães selvagens na ilha da Páscoa e foi assaltada por macacos no Sri Lanka, trauma ganho desde pequena no Zoo de Lisboa, quando um babuíno roubou à pequena miúda o seu sumo do bongo. O de 7 frutos, ainda para mais.
 
Foi muito melhor do que algum dia esperaria. Deixou de ver Vida Selvagem ao fim de semana na SIC de manhã e passou a ver tudo ao vivo. Todo o tipo de animais vivos.
 
Esta miúda dançou ao som de hip hop na Flórida, encantou-se com os musicais da Broadway, comeu lagosta em Boston e ouviu Alicia Keys, Jay-Z e John Mayer juntos num concerto surpresa em Times Square, por mero acaso.
 
Fez voos fretados apenas com reformados ingleses para irem de encontro aos seus cruzeiros - como a Mrs. Anne, 80 anos, que afastava a sua máscara de O2 para beber de uma só vez as garrafinhas de whisky dadas pela miúda, a quem lhe contava as histórias das suas paixões. Ia encontrar-se com o seu jovem namorado que trabalhava como músico no cruzeiro.  
 
Emocionou-se com cartas de passageiros a agradecer lhe irem ter salvo a vida e da história de um senhor idoso que foi vítima de um atentado no Afeganistão.
 
Passeou por mercados africanos, como um em Accra onde raramente era avistado um branco. Viu caixões em Lagos, Nigéria a serem vendidos nas bermas da estrada e trabalhou com nigerianos. Ainda hoje recorda o pssssssst quando a queriam chamar, o gimme jûce e o gimme rice

Correu como o Forest Gump a caminho da carrinha na Namíbia e no Rio de Janeiro, a fugir de assaltantes. Safou-se sempre. 
 
Foi ao cabo da Boa Esperança - o mítico cabo das Tormentas - andou descalça em inúmeros templos budistas, viu um pôr do sol mágico em Myanmar, usou um chapéu vietnamita e parou propositadamente no meio de uma estrada em Hanói, sem que nenhuma mota lhe tocasse. Fez massagens tailandesas e recusou delicadamente happy endings e ping pong shows
 
Foi a países nórdicos tão evoluídos e secretamente desejou mudar-se para lá. Passeou em Petra, Jordânia, uma das mais incríveis maravilhas. Serviu chá de coca a passageiros na Bolívia e sentou-se com a Mafalda do Quino em Buenos Aires
 
Esta miúda teve mais do que imaginou. Tem um mapa mundo muito riscado e um frigorífico que um dia cai com o peso dos ímans. Tem um vasto registo de sabores, cheiros e sons, memórias que jamais esperaria ter. Nada faria prever.

Teve uma sorte do caraças.

Esta miúda já não necessita de fugir, já entendeu que as viagens foram a sua viagem necessária. As viagens fizeram parte de uma maior e contínua viagem que teria um dia que travar em termos pessoais - a do compromisso. Viveu anos repletos de experiências fantásticas e entorpeceu. Percebeu que ''a liberdade absoluta, em si mesma, não significa nada''. Chafurdou em inúmeras terras e oceanos. Acabou por recusar alternativas, estreitar a liberdade e comprometer-se ao Mondego.


   

domingo, 30 de dezembro de 2018

Um bom ano!

Queria terminar o ano aqui no blog com uma boa oportunidade de emprego na área e desejar-vos a todos um excelente ano com muitos e bons voos!

Feliz 2019!


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Portugueses pelo mundo - Aviação




Neste episódio do "Portugueses pelo Mundo", andamos pelo ar e conhecemos três portugueses que escolheram trabalhar em áreas ligadas a aviação na Europa e na América do Norte.

A viagem começa com o piloto da NATO Frederico Sousa, 37 anos, que vive em Heinsberg, na Alemanha. Enquanto nos guia pela base, fala-nos do seu percurso profissional, do trabalho na NATO e do funcionamento das missões. Convida-nos para acompanhar uma das missões em que está envolvido e, depois da missão, durante um passeio junto ao lago e pelo centro da cidade, apresenta-nos a família. A noite está reservada para um jantar de amigos, num restaurante português.
Da Alemanha seguimos para Filadélfia, nos Estados Unidos da América, onde Carlos Lopes, 36 anos, trabalha como comissário de bordo da American Airlines. Acompanhamos a saída de casa em direção ao aeroporto e a preparação de um voo para Boston. Com ele ficamos a conhecer uma antiga estação de comboios convertida em mercado, onde é possível encontrar comida e produtos do mundo, as Rocky Steps e a galeria de arte ao ar livre, Magic Gardens. Em dia do dérbi do Eagles contra o Dallas, assistimos ao jogo num bar, na companhia de amigos. 
É na Europa que continuamos a viagem e desta vez em Cambridge, em Inglaterra, onde Pedro Aguiar, 36 anos, trabalha para a Embraer, empresa fabricante de aviões. Guia-nos pelo hangar, onde se encontra o Legacy 500, um avião muito especial e na sua companhia disfrutamos de um passeio pelas ruas da cidade, sobre a qual descobrimos algumas curiosidades como os pointers, que navegam no rio e vão contando as histórias, como a árvore de Isaac Newton ou até das várias universidades, entre as quais a Kings College, a maior da cidade. Acompanhamos uma aula de cross-fit e um jantar num restaurante libanês, um dos seus preferidos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Passageiros


O passageiro ou aquela coisinha simpática que vem agarrada ao Boarding Card. Esse mesmo. Este texto é para ti.

Aviação não era nada sem eles. Sabemos que a senhora de origem cabo-verdiana que limpa a casa de banho do aeroporto não trabalhava se não existisse o passageiro, que a Jordete que trabalha no aeroporto e comanda a porta de embarque como um general, só que com blush e salto alto, não trabalhava se ele não existisse, que o Comandante, aquela figura física de Deus era apenas um comum mortal se passageiros não existissem. Se não existisse, para quê cabineiras elegantes, TMAs, agentes de panca (rampa) ou catering, OCC Managers e toda panóplia de managers e deputies existentes nas diversas áreas de aviação, cujas siglas vão mudando de significado a par das tendências.

Posto isto, e já aqui referida a sua importância vital para o sector (sim, são vocês que nos pagam o ordenado), vamos lá falar de passageiros.

Tal como adoro cabineiros, não consegui excluir os passageiros deste rol de paixões fortes.

Adoro o passageiro bem disposto e educado, aquele que nos cumprimenta, que nos olha nos olhos. Adoro também o que entra a reclamar e que diz "Isto hoje em dia está cada vez pior", ou o que entra e que nos ignora. Este último pode ser porque se sente intimidado por nós e é apenas tímido (gosto de acreditar nisto) ou então é porque é apenas mal educado. Gosto daquela passageira atrevida que entra a meter-se com os comissários giros ou daquela que confessa logo ali à entrada que não está ali por opção. É a que tem pavor de voar.

Grande parte dos passageiros tem medo de voar. Percebemos isso de várias maneiras. São os que estão mais atentos ao que fazemos e dizemos nas fases mais críticas do voo. São aqueles que dão as mãos na descolagem aos parceiros ou aqueles que se benzem ao colocar o pé no avião. O direito, claro.

Adoro o passageiro brasuca bem disposto e aquele que julga que estamos lá para o servir. É cultural, malta.

Adoro aquele que pede tudo o que tem direito, pede água, café e coca-cola com gelo e limão. Repara que também existe sumo de tomate no carro. Também quer. Nem vale a pena perguntar se quer sal ou pimenta, óbvio que quer. E o stick também. Sem a cabineira ver, limpa os talheres e guarda-os na mala. Dão tanto jeito em casa. Pode sempre vender no OLX. COMO NÃO DÁ PARA LEVAR A MANTA?! Eu paguei! É minha! O colete também!

E aqueles passageiros que acham que o avião é a sua casa. Aqueles que cortam unhas, as pintam e até os que as elevam no banco da frente, as dos pés. Por que não.

O passageiro que mais gosto é aquele que fica tenso assim que o trolley (carrinho) de bebidas incluídas no bilhete se está a aproximar da sua fila. Esse passageiro já não se mexe quando está a duas filas de si, para de ler, ver filmes ou falar. Fica hirto e tenso, atento e com medo que a cabineira jovem se esqueça dele. Ele quer muito beber, só porque está incluído e ele tem esse direito. É um caso sério. Raramente este tipo de passageiro cumprimenta a tripulante. Está tão tenso que a cabineira não se atreve a esquecer dele, com medo que sofra um ataque cardíaco. Mas dá vontade. Assim que tem a bebida, os ombros relaxam e ele limita-se à pequenez da coisa.

O meu segundo preferido é aquele passageiro que adora aviação. Sabemos logo quem é, assim que entra a sorrir. É aquele que sabe o modelo do avião, a matrícula, sabe do novo modelo e do phase out de outro. É aquele que dá mais gosto agradar. É um tolinho que nos entende. Padece deste mal.

Adoro o passageiro que tem sempre um bom timing no que se refere a idas aos lavabos, pontos extra se for um avião com um corredor e no momento em que decorre o serviço.

Gosto do passageiro emigrante, do amor que sente pelo país, da alegria ao nos ver e ouvir. Muito respeito por este tipo de passageiro.

Adoro os passageiros pastinhas, os executivos altamente arrogantes e com inúmeros pertences caros. Ignoram em sofrimento que têm que respirar o mesmo ar que a plebe durante aquelas horas.

E aquela que não aceita ir apenas ao lavabo da classe que pagou? O de lá da frente é o dela, digam-lhe o que disserem. Não pagou Executiva, mas isso não interessa nada. Normalmente abre a cortina com muita atitude. Barreiras não são para esta senhora.

Adoro aquele que entra com a mala que excede as medidas, mala de mão, saco de duty free e casacão. Exige e reivindica a bagageira só para si. A hospedeira devia saber que ele pagou por ela. Miúda tola.

Gosto daquele que entende que isto de voar melhora com dois copinhos de vinho e gosto daquele que entendeu tão bem que até bebe do seu comprado no duty free. Não há cá limites para um verdadeiro liquid spirit. São os que acham que a cabineira não repara.

Adoro aquele que nos conta a vida toda e que só volta para o lugar quando o sinal de cintos se acende.

E aqueles que vão descalços aos lavabos?

Adoro o passageiro que dorme o voo todo e que ainda não se apercebeu que aterramos. Pode acontecer, se tomares e misturares coisas. Não julgamos.

Adoro os putos a pilhas, curiosos e sem medos. Os putos com as perguntas mais estapafúrdias. Os que nos dão desenhos e que querem ser como nós.

Adoro os passageiros velhinhos e simpáticos, que já não têm pressa. Exigem pouco e oferecem um sorriso e histórias doces.

Amo a magia de quem voa pela primeira vez. A alegria e nervosismo.

Adoro os que receiam mulheres nos comandos. "Daqui fala-vos a vossa comandante Beatriz" ainda é causador de cólica súbita.

Passageiros, tal como o nome indica, são passageiros, vão e vêm. Não ficamos sentidos. Entendemos. Preferimos quem nos trate bem e quem entenda que as vossas queixas são nos sobretudo alheias. Não decidimos a greve do ATC em França, nem o limite do espaço nas bagageiras, nem tão pouco tivemos influência no nevoeiro que causou o atraso. Sabemos que somos o rosto das vossas dores e que estamos sempre a ser julgados por vós. Nem sempre conseguimos ajudar e agradar todos.

Chegámos por agora ao fim, aterrámos ao som das palmas efusivas dos viajantes.

Ai...

Passageiros.